Lembrança ≠ Expectativa
Domingo passado Sir Paul McCartney completou 64 anos. Num tempo não muito distante – mais precisamente 1966 nos áureos 24 anos de idade - escreveu uma canção que se chama “Quando eu tiver 64 (anos)” e dividiu com o mundo as suas expectativas para a terceira idade.
"I could be handy, mending a fuse
When your lights have gone.
You can knit a sweater by the fireside
Sunday morning go for a ride,
Doing the garden, digging the weeds,
Who could ask for more.
Will you still need me, will you still feed me
When I'm sixty-four."
Nesta época, creio eu, ele nem sonhava que, aos 64 anos, sua banda teria se separado, dois irmãos musicais teriam morrido, além de sua companheira de passeios matinais aos domingos e “tricoteira” de blusas. Pelo menos a substituta dela tem dotes um tanto quanto duvidosos mas tornou a vida do meu velhinho favorito mais agradável e deixou a saudade um pouco mais distante.
Ultimamente venho pensando que esta palavra “expectativa” é uma coisa extremamente negativa. Gera ansiedade, falta de controle, dor, tristeza. Devaneio falado é devaneio real: Será a expectativa mais um mal moderno? Querer que as coisas tomem forma na vida, ou ter medo da forma que elas ainda irão tomar. Tem coisas que fogem do nosso alcance e outras que estão perto demais para arriscar e pôr a "segurança" da expectativa criada a perder.
Há expectativas que viram realidade? Ou será expectativa um sinônimo de frustração?
Enquanto as respostas não chegam, lanço mão da vez em que cantei “When I’m sixty-four” em plenos pulmões olhando para o mar que timidamente passava pela janela do carro e quis que aquele momento se alongasse até os meus 64 anos. Lembrança é o antônimo da expectativa.
Viver o presente.
Como é que a roda de apelidos carinhosos gira em torno dos parceiros de uma vida?
Lembro-me bem de ter levantado esta questão em outras águas, as musicais. E na época, a discussão foi sobre ser, ou não, possível de carregar uma canção que era tema de um relacionamento anterior para o próximo. As músicas são parte da nossa parcela romântica e, portanto, são sempre os mesmos tons e acordes que aparecem quando começamos a sentir borboletas no estômago (pra você, Thatha)? Ou não? As músicas são sim identidade daquele casal, estando juntos ou separados?
Os apelidos. Creio que a relação muda quando os apelidos tomam o lugar dos nomes próprios. É a criação de um código usado apenas por dois. Será? E se forem códigos repetidos?
Assisti a um episódio de "Comédias da Vida Privada", do Veríssimo, onde Débora Bloch e Tony Ramos buscavam apelidos carinhosos um para o outro. O personagem do Tony preparou cartazes e fez uma enquete digna de jornal. A personagem de Débora ficou de saco cheio da história e resolveu chamá-lo de "xarope", "meu xaropão". Apelido que obviamente a expectativa romântica dele recusou.
A questão é: nem sempre uma marca que você considera genuína sua é realmente sua. Ela já pode ter sido usada com outras genuinidades por aí. Somos tão sem criatividade assim? Precisamos lançar mão da repetição? Onde mora a identidade? Confusa entre tantas pessoas chamadas do mesmo jeito. Será que dói para o antigo descobrir que o novo possui o mesmo apelido? Ou será que o novo sente-se descaracterizado por tamanha falta de associação pessoal?
Músicas, apelidos. Tudo no amor é um verdadeiro, e grande, clichê.
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clichê |
Há dias que venho pensando no que escrever aqui. Frases me vem à cabeça, soltas. Penso em falar sobre assuntos do dia-a-dia. Penso em devaneios (não) ficcionais. Sei lá, vai ver a musa da inspiração me largou em uma das esquinas que passei.
Outro dia um amigo me pediu um tema para o seu novo texto. Sugeri "injeção". Depois do estranhamento inicial (estranhamento é uma palavra que o word não reconhece), ele disse que precisava de um tema maior, pois tratava-se de um conto. Achei engraçado. Hospital. E foi aceito.
Hoje estava na minha ronda semanal pelos blogs amigos e encontrei Laudicéia. "Seja quente ou frio, seja morno e te vomito". Ou garfo. Situações curiosas. Você sabe de onde vem Laudicéia? Eu sei. "Googlei" durante saudosas conversas, li um texto a respeito e escrevi outro (um dos meus melhores, por sinal). Começo, meio e fim.
Fui ao tarô ontem. Comprei o presente de dia dos namorados e ganhei duas consultas. Dois tarôs. Dez minutos cada. Uma mão e algumas cartas. Sei não. Escutar previsões ao mesmo tempo que se ouve "blim-blom, Jocasta, sua filha a aguarda no balcão de informações. Jocasta". Risos e a viagem perfeita.
A FLIP está chegando. E uma frase do Jorge Amado teima em me perseguir: “Cada qual cuide de seu enterro, impossível não há”.
Caminhemos.

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