E as aulas começaram...
Na última quinta-feira voltei ao meu habitat natural, uma sala de aula de um centro de línguas. No ano de 2005 decidi me afastar das classes de adultos e adolescentes para me dedicar ao ensino infantil. Durante todo o período tive várias crises profissionais. Achei que eu "não dava mais para a coisa" e que já havia secado a fonte. Analisando muito bem todas as sensações, derramando muitas lágrimas, irritando pessoas queridas com tantos questionamentos (Obrigada amor, Thatha, Maria) cheguei a uma conclusão. Eu, ariana nata, preciso ver as coisas concluídas. Não consigo dar aulas só para o nível inicial e não saber o que irá acontecer com eles depois. Preciso do ciclo completo.
Nesta semana, durante as aulas, senti o tesão de estar na frente de uma classe novamente. Há muito este prazer havia sido perdido. Foi muito bom! Dei várias aulas com a impressão da primeira vez, o deslumbre da menina de 17 anos. E sobre todas essas coisas fiquei pensando que todos os seres humanos deveriam ter a chance desse recomeço, dessa experimentação por toda a sua carreira. Infelizmente quem se arrisca a fazer algo assim no nosso país, acaba sem créditos ou mal-visto e não é dado o devido valor de quem ousa.

"Pensam que não vale mais eu vir cantar
Rumos de povo e coisa e tal
E sonhos de moço pensam ser devagar
Morreram com quem já não é
É hoje, sempre, amanhã, sempre está
Sou homem, sou jovem, menino, sou eu
Por mais que me mate o amanhã
A fé me transborda essa manhã
O pão, mais um dia, o Dom da vida
O sol da vida, eu quero acreditar
O pão, me mereça essa manhã
Que importa se estou a repetir
68, qualquer dano, o dano todo, quero acreditar
Mas de quem tá atrás de mim quero ver
Um amanhã em tudo meu
Dar liberdade quem está atrás de mim
Menino, quero acreditar
Ah, isso eu quero acreditar"
(Milton Nascimento - Sonho de Moço)

Pessoas de doze signos resolveram sair para comprar um CD de presente para um amigo. Cruzaram a porta da loja e pararam na entrada, indecisos.
- Vamos fazer o seguinte - sugeriu o LIBRIANO, sempre tentando conciliar as pessoas - cada um olha uma seção e, no final, a gente volta aqui para escolher o melhor.
Assim fizeram. Meia-hora depois, voltaram todos, menos o PISCIANO, que ficou lá no canto, ouvindo um CD de New Age, esquecido do mundo e da razão de estar ali.
- Achei um que vai arrasar: Sepultura - mostrou como um troféu, o apressado ARIANO, sempre o primeiro a falar.
- Que mau gosto! - disparou o SAGITARIANO, que não gosta de ficar atrás e adora ser direto em seus comentários - Tem aqui o último do Metallica que é imperdível.
- Vocês não entendem nada de música - sentenciou o AQUARIANO, com aquele ar de superioridade - Encontrei um importado de Tecno, que vai ser demais. AQUARIANO é assim mesmo, sempre vai atrás do que é novo e diferente.
- Ei, vamos agilizar - comentou o GEMINIANO. Vamos de Rolling Stones, que é bem maneiro.
- Nada disso - protestou o determinado TAURINO, fazendo um bico, e disposto a não mudar de opinião - Tem que ter muito amor, peguei Djavan, que é lindo!
- E eu prefiro Marisa Monte - atacou o romântico e saudosista CANCERIANO, ponderando: Já que não se sabe quando ela vai gravar de novo...
A essa altura, o CAPRICORNIANO, melancólico e deprimido, com seu sertanejo na mão esperando aprovação do grupo.
- Vocês estão brincando comigo - esbravejou o LEONINO - Prá ter meu nome aí, tem que ser um CD de classe. Peguei o último show da Madonna. LEÃO não gosta de ficar para trás, e tem horror de ser criticado ou chamado de "brega".
- Concordo com ter classe, mas é preciso prestigiar o produto nacional - falou o LIBRIANO, com jeito de entendido - Separei o dos Titãs, que tem aquela música linda: Epitáfio....LIBRA tem seu lado romântico, mas procura...
- Clássicos, gente, clássicos! - bradou o VIRGINIANO, com seu estilo direto, mas muito ligado ao bom senso, e ao cotidiano simples - Será que vocês não se ligam em raízes?
O ESCORPIANO não disse nada. Simplesmente colocou o CD do U2 em cima do balcão, deixando bem clara sua escolha, e a pouca disposição para discutir ou aceitar outra opinião.
Neste ínterim, o PISCIANO chega lá do fundo e vê toda aquela confusão. Como gosta de harmonia, tenta achar um jeito sutil de trazer a paz de volta. Coça a cabeça, e sai com a sugestão genial:
- Que tal darmos apenas um vale-CD?
Todos aplaudiram, pagaram no caixa e resolveram comemorar o fim da confusão, em um barzinho. No caminho, começou um outro bate-boca sobre o que iriam pedir.
Mas isso... é outra história!!!
O Galego de Jundiaí
E lá fomos nós mais uma vez. Início de ano letivo, plenária no teatro Polytheama, "politicagens" e muito estrógeno junto. Eu que nasci meio torta, uma mulher que várias vezes pensa como homem (não me entenda mal), me sinto sempre um alien em meio delas. Beijos, abraços, obstrução do caminho, risadas altas, saltos altos e os modelitos comprados para a exibição primeira do ano. Filhos deixados em casa, choramingos. Reclamações sobre os projetos vindouros para ninguém ouvir, reclamar assim de graça só para o espírito escurecer um pouquinho e o ânimo inicial esvair-se no ar-condicionado do teatro. As luzes se apagam. Um projetor desce e um pedaço do musical "Lord of the dance" começa a ser exibido. É um sapateado muito bem ensaiado, um tremendo trabalho em grupo. Depois veio uma orquestra a tocar uma daquelas sinfonias que nos embebedam o espírito. Não sei quantos usavam os ouvidos e os olhos nesta hora. Sei que muitas usavam as línguas e atrapalhavam o meu deleite individual com o barulho de suas conversas cheias de "conteúdo" e imprescindíveis. Só o hino nacional acabaria com o meu tormento. E a voz do Galego de Jundiaí.
José Antônio Galego é o nosso secretário da educação e esportes. É uma figura ímpar, cheia de sensibilidade e um sorriso amigo por onde quer que passe. Foi o mais aplaudido durante a cerimônia e "causou" quando pediu permissão às professoras para tirar o paletó e ficar assim, mais à vontade. Tornou-se secretário no ano passado saindo da faculdade de educação física para o poder executivo da cidade. Assumiu que seu ano de 2005 foi muito difícil e pediu desculpas por não ter visitado todas as escolas. Traz para Jundiaí o Projeto Guri com o objetivo de ensinar como tocar os instrumentos de uma orquestra para crianças de 8 a 18 anos e com a justificativa de que somos todos cheios de ritmo porque no nosso peito bate um coração e que, para alimentá-lo, precisamos de música na alma. Trabalho cativante e palavras que nos fazem seguir adiante com fé no que ele ainda há de criar. São inspiração dele essas palavras abaixo que o levaram às lágrimas junto a tantos olhos que o fitavam em admiração. Que venha 2006!
"Ontem um menino que brincava me falou
Ele é semente do amanhã
Para não ter medo que este tempo vai passar
Não se desespere e nem pare de sonhar
Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs
Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar
Fé na vida, fé no homem, fé no que virá
Nós podemos tudo, nós podemos mais."
(Nunca pare de sonhar - Gonzaguinha)
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