
Dogville
As três cidades de Trier
Tudo começou com Dogville (2003), um filme difícil de cativar que muitos só locaram ou foram ao cinema pelo belo perfil de Nicole Kidman no cartaz. Quem resistiu aos primeiros minutos e aos choques que o movimento dogma nos proporcionava ganhou um filme digno de ser aplaudido de pé. O primeiro filho da trilogia intitulada "USA - Land of Opportunities" trata de uma pequena vila chamada Dogville e seus habitantes. Em 1930, Grace (Nicole Kidman) faz o papel da mocinha desgarrada da cidade grande por um motivo particular - e perigoso pois havia gangsters em seu encalço - desconhecido aos outros. Esperança de uma vida mais simples, sem hipocrisia, sem a influência de poder e de um cano fumegante era o que a mocinha buscava e, para tanto, não poupou esforços para ganhar a confiança dos outros e jogar a graciosidade do rosto fino e da maneira educada no trato com as pessoas. Os moradores, por sua vez, tinham um líder "auto-indicado", Tom. Este tentava sempre instigar seus coterrâneos a filosofar sobre os assuntos corriqueiros do mundo e colocava mais perto os dilemas da cidade grande do vilarejo. Esperava ter um retorno menos medíocre daqueles com quem convivia. Colocada a visão panorâmica do enredo vamos ao que interessa, Trier mostra como o caráter do ser humano pode ser modificado a partir de suas excentricidades perante o novo, indefeso e servil. Fazemos o mal fingindo fazer o bem. Há muito obscuro dentro de nós, será que somos inicialmente todos bons ou maus? Temos em nós o princípio da bondade ou o da maldade? A resposta é oportunidade e conveniência.
Em Manderlay (2005), segunda parte da trilogia, a mesma heroína Grace (agora sem os dotes de Nicole Kidman mas bem representada por Bryce Dallas Howard) parte em busca de uma nova bandeira a defender em outro lugar da terra do Tio Sam. Alguns anos depois do ocorrido em Dogville ela pára em Manderlay, uma fazenda que depois de 70 anos de escravatura abolida ainda mantinha os negros trabalhando ao seu bel prazer. Desperta pelo desejo de ajudar os outros, a mocinha decide tomar o poder que detém - ela é filha do gangster que a perseguia no primeiro filme - e impor a liberdade dos trabalhores à fazendeira oportunista. Tendo sucesso em sua empreitada, Grace começa a "educar" tanto os negros para sua nova vida de rendimentos e de andar "sem lenço nem documento" quanto os brancos para o reconhecimento de seu novo lugar e das divisões de tarefas exigidas pelo lavor. Havia um livro na fazenda que categorizava os escravos em 7 diferentes tipos. Cada qual se encaixava em um perfil e Grace, em posse de tal documento, bradava quão degradante aquele objeto era em relação a evolução da humanidade e de seus ecos de igualdade. Inicia-se assim uma cooperativa onde todos colheriam os frutos do que plantaram. O enredo continua com problemas de socialização e Grace tentando colocar a sua credibilidade goela abaixo com uma "ajudinha" especial dos capangas de seu pai. Esta segunda parte mostra como todos estamos despreparados para trocar de uma crença imposta e castradora - como a escravatura - para uma liberdade incondicional com apenas um passo. A sociedade era - e ainda é - preconceituosa e não bastou a abolição. A escravidão ainda existe disfarçada na máscara de fazer o bem.
Esperemos Wasington agora. O que será que o dinamarquês irá criticar? Alguém palpita?
"Do you remember, your President Nixon?
Do you remember, the bills you have to pay?
Or even yesterday?
Have been the un-American?
Just you and your idol sing falsetto
'bout Leather, leather everywhere, and
Not a myth left from the ghetto
Well, well, well, would you carry a razor
In case, just in case of depression?
Sit on your hands on a bus of survivors
Blushing at all the afro-Sheeners
Ain't that close to love?
Well, ain't that poster love?
Well, it ain't that Barbie doll
Her hearts have been broken just like you"
(trecho da música Young Americans de David Bowie que é tocada ao final dos dois filmes com fotos impressionantes dos dois temas abordados)

Manderlay
Receita de ano novo
Carlos Drummond de Andrade
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
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