Não havia como retroceder. Ela sabia bem que os fatos esfarelados em sua frente não sumiriam como migalhas no papo de pombas - permaneceria - as lágrimas transformá-los-ia em papa para velhos. Comida subnutrida, engana-fome. Abriu um livro e imóvel começou a divagar na calada da clara noite. Entre pensamentos cortantes feito navalha de carniceiro as horas corriam. O que não cortava, pesava. Queria ser outra de alma mais leve, de vida mais simples. Queria o cotidiano do mestre malandro para a sua vida. "Todo dia ela faz tudo sempre igual...". Ela. Ela que não eu. Eu que nem ela. A maldita ponte cruzada.
"Uma visita à cartomante de Macabéa me cairia muito bem", diria ela. Só ouviria notícias boas vindouras e morreria de uma só vez ao atravessar a rua. Morte simples para uma vida complicada. Morte para quem merece. Morte sem dor, sem consciência. Consciência. Quem é? Sou eu? É ela?
A vida tomava um outro rumo, novas dimensões, uma visão periférica. A cabeça vai acompanhá-la. Ela sempre a acompanha. Para os esquecimentos existe o papel. Para as desculpas existe a boca. Para a memória existe o ouvido. A cabeça só é depósito. Ela não quer mais ler. Deixa o livro descansar, ele ainda pode e consegue a proeza. Ela pega uma aquarela e sai a pintar.
Os da terra e os do céu

"Mas a girafa era uma virgem de tranças recém-cortadas. Com a tola inocência do que é grande e leve e sem culpa. A mulher do casaco marrom desviou os olhos, doente, doente. Sem conseguir – diante da aérea girafa pousada, diante daquele silencioso pássaro sem asas – sem conseguir encontrar dentro de si ponto pior de sua doença, o ponto mais doente, o ponto de ódio, ela que fora ao Jardim Zoológico para adoecer. Mas não diante da girafa, que era mais paisagem do que ente. Não diante daquela carne que se distraíra em altura e distância, a girafa quase verde. Procurou outros animais, tentava aprender com eles a odiar. O hipopótamo, o hipopótamo úmido. O rolo roliço de carne, carne redonda e muda esperando outra carne roliça e muda. Não. Pois havia tal amor humilde em se manter apenas carne, tal doce martírio em não saber pensar."
(CLARICE LISPECTOR)

"O que é um sonho ruim?
E o que é um sonho bom?
Que diferença a vida é igual..
É assim eu não sei
Eu não sei...
Não sei...
Se isso é você
Que bate aí
Se é pra eu te ver então deixa eu dormir"
(Os pássaros - Los Hermanos)
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