Granada
Na última noite
os corações se encontram primeiro.
Dentro do tecido e do peito
dispõem-se a acertar o passo
(código Morse toque-a-toque decifrado)
até que o jorro
ouro-vermelho sobe aos lábios,
dispara o beijo
em alta velocidade,
despenca a ladeira abaixo,
acendendo os entrepostos no caminho.
Quando as palavras finalmente se apresentam
(ruídos, balbucios)
estremunhadas em meio ao motim
sob impacto de granada (sua fala),
o sonho explode.
- Cláudia Roquette-Pinto
E eu, extasiada, sucumbo às dores viscerais da saudade. A doce-amarga sensação do estar perto, estar longe. E em meio aos opostos decido: estar – definitivamente - dentro.
You've got a friend
A amizade é o relacionamento que tem mais a cara do nosso tempo. Ou talvez, mais ainda, do futuro. Livre, aberta, democrática, ela nos convida ao exercício da tolerância, da aceitação do outro exatamente como ele é. Além disso, nos faz provar um pouquinho do gosto do amor incondicional, aquele que não perde tempo em cobranças ou exigências. Ela é tão especial que, hoje, uma boa centena de pensadores, sociólogos, psicólogos e antropólogos se dedica inteiramente ao seu estudo.
Há diferentes graus de intimidade e compromisso na amizade. Há o amigo de grandes confidências e o amigo para ir ao cinema e tomar chope. Amigos de infância ocasionalmente também voltam para nossas vidas. E sempre vamos nos lembrar com carinho daqueles amigos que nos ensinaram uma grande lição, que deram um apoio num momento muito difícil ou ainda com quem dividimos aventuras significativas. Uma grande sabedoria é distinguir quem é quem: não trocar confidências com quem se tem uma relação rasa, não exigir que os amigos de infância fiquem para sempre, não esperar que conhecidos e camaradas sejam capazes de arriscar o pescoço por nós. Cada um é um, e o maravilhoso da amizade é exatamente essa sua relatividade elástica. Reconhecendo os limites e capacidades (e, por que não, as funções) de cada amigo, podemos prolongar e cultivar amizades por muitos anos.
Nos livros O Herói de Mil Faces (Pensamento) e O Poder do Mito (Palas Athena), o mitólogo e professor Joseph Campbell afirma que a maioria dos mitos descreve a maneira pela qual os amigos, ou auxiliares externos, ajudam o protagonista a cumprir seu destino. São seres encantados, animais que falam, anjos, gênios, magos e, principalmente, escudeiros, os fiéis companheiros de travessia. Sem eles, nada feito. Seria ótimo se a gente pudesse olhar para nossos amigos assim, como gente que está ali para nos ajudar a viver a vida.
Bom, o assunto é inesgotável. Para terminar, queria lembrar alguém que fez um tratado sobre amizade (Da Amizade, Martins Fontes) há quase 2 mil anos, o senador romano Marco Túlio Cícero. Diz ele que se os deuses nos dessem o paraíso, com suas flores e fontes, paz e abundância, beleza e harmonia, em pouquíssimo tempo a gente morreria de tédio, se não tivéssemos amigos para dividir a experiência. Enfim, sem o sal da amizade, a vida fica sem tempero, sem graça. Não é motivo suficiente para você levantar agora do sofá e ir ver um amigo?
(trechos extraídos da reportagem de Liane Alves para a revista "vida simples" de outubro/2005)
All About Mara
O enredo é sobre uma moça aparentemente ingênua que demonstra ter uma afeição doentia por uma estrela de teatro. Ela assiste a todas as apresentações do espetáculo em cartaz até que chama a atenção de uma das grã-finas que o freqüenta. Essa, por sua vez, decide fazer a sua boa ação do dia ao apresentar a caipira para a atriz. A mocinha cativa a todos com sua história sofrida e passa a ser uma espécie de governanta na casa da ricaça dos palcos que ela admirava. Daí em diante começamos a perceber que ela não é tão tonta quanto aparentava e que a fortaleza da outra era apenas um disfarce para a insegurança e fragilidade que eram guardadas a sete chaves. Há ainda outras chantagens e golpes que nós mulheres conhecemos muito bem. Não vou contar o final, pois sou a encarnação da expressão pleasure delayer.
Ao olhar a capa do DVD, os olhos penetrantes de Bette Davis nos levam a pensar que ela seja a malvada do título. É uma agradável surpresa perceber que não. A atuação está perfeita! Ela e Anne Baxter, que faz o papel de Eve, estão memoráveis (acho que já são haja vista o ano da filmagem! rs).
Então, se você não se assusta com produções em p&b e é um estudioso da alma feminina ou simplesmente uma participante da espécie, recomendo que essa seja a sua próxima locação. Se você, por ventura, for leitor em carne e osso para mim, pode ousar pedir a minha cópia emprestada.
Margo Channing: Funny business, a woman's career, the things you drop on the way up the ladder so you can move faster. You forget you'll need them again when you get back to being a woman. It's one career all females have in common - being a woman. Sooner or later we've got to work at it no matter how many other careers we've had or wanted. And in the last analysis nothing is any good unless you can look up just before dinner or turn around in bed and there he is. Without that you're not a woman. You're something with a French provincial office or a book full of clippings but you're not a woman. Slow curtain, the end.
Lloyd Richards: You've developed a certain cynicism since you've been married to me.
Karen Richards: I developed that cynicism the day I discovered I was different from little boys!
Addison DeWitt: That I should want you at all suddenly strikes me as the height of improbability... you're an improbable person, Eve, but so am I. We have that in common. Also a contempt for humanity, an inability to love or be loved, insatiable ambition - and talent. We deserve each other.
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