Saudosista

Sabe aqueles dias que você tira para divagar sobre o passado? Então... Perigoso, né? Estou pisando em campo minado, eu sei, mas foi inevitável que esta caixa de Pandora - com honrosa menção ao meu querido Dream - fosse aberta escancarada...

Concordo com Renato Russo quando diz "E é só você que tem a cura do meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi..." Esta sensação é mesmo muito engraçada, no sentido bem irônico de dizer isso. Algumas pessoas tem o poder de despertar esse tipo de lembrança, de memória, que mais parece o fenômeno do "órgão fantasma". Quando se amputa um membro do corpo, durante muito tempo a sensação desse membro permanece. Adivinhe só o que acontece com as pessoas "amputadas"???

Hoje deixo duas histórias. As "cirurgias" de remoção mais doloridas e aquelas que exerceram maior impacto no depois. Até hoje a dúvida permanece. Mas uma vez transposta a ponte - você sabe bem - ela cai. There´s no turning back...

1. Namorinho de portão, meu primeiro namorado, 15 anos. Colégio Técnico, liberdade a mil para adolescentes que nem mesmo sabiam o que fazer com ela. Descobertas, descobertas, descobertas. A ilusão de que ia durar para sempre. Um amigo já me descreveria assim ao final do colegial: "A menina de 14 anos que tirou a sorte grande encontrando o amor de sua vida na mesma escola em que estudava. Sua alegria e vontade de viver, sua preguiça e seu dengo. A friend que virou teacher! A adoradora de "ratos importados". Casará?" Pois é... Pois é... Hoje fica o ponto de interrogação. O que teria acontecido se naquele inverno de 2001, meu coração tivesse feito um pedido diferente à lua? Quem eu seria? 

"se a TV estiver fora do ar
quando passarem
os melhores momentos da sua vida
pela janela alguém estará
de olho em você"

(Parabólica - Engenheiros do Hawaii)

“Olha a lua mansa a se derramar (me leva amor)
Ao luar descansa meu caminhar (amor)
Meu olhar em festa se fez feliz (me leva amor)
Lembrando a seresta que um dia eu fiz (por onde for quero ser seu par)”

(Andanças – Beth Carvalho)

"You are me, I am you
(we are one)
What you see, is all true
(I am you) (we are one) (it’s all true)
You are me, I am you
(we are one)
What you see, is all true
(we are one)"

(We Are One - Kiss)

2. Amor platônico, almas gêmeas - se isso existe, com certeza somos um par delas. Sentimento disfarçado para que a amizade pudesse aparecer, fortificar-se, tornar-se inabalável. Fomos ludibriados pela mão do destino, mais uma vez ele. Sucumbimos às nossas sensações e resgatamos a libido juvenil soterrada por convenções morais. Tivemos os dias em que tudo parecia possível. O mundo em nossas mãos ainda um tanto inexperientes sobre a dor pungente do coração. Hoje, felizes somos com o nosso tipo de amor único. Como fomos e somos invejados! Satisfeitos? Talvez... Os 27 e 28 estão aí... As reticências são a melhor definição para esse caso...

“But of all these friends and lovers
There is no one compares with you
And these memories lose their meaning
When I think of love as something new
Though I know I’ll never lose affection
For people and things that went before
I know I’ll often stop and think about them
In my life I love you more”

 

(In My Life – The Beatles)

 

“Depois de te perder
Te encontro com certeza
Talvez no tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei como encantado
Ao lado teu”

 

(Todo o Sentimento – Chico Buarque)

Finders Keepers

 

Você acredita em acaso? Coincidências? Sincronicidade? Quantos nomes para o mesmo sentimento, para o acontecimento inexplicável que tange as nossas vidas de tempos em tempos. O que fazer diante da magnificência da dúvida que eles trazem? “Meant to be”, escrito nas estrelas, destino? Tantos outros nomes para definir aquilo que a gente não controla. Todos nós buscamos o conforto nessas crenças quando não conseguimos deixar racionais nossos atos.

 

Escolhas, caminhos, vontade. “Você não é o seu interior, é aquilo que você faz que te define”, escutei hoje no Batman Begins – ótimo filme! O melhor de todos! – e fiquei refletindo a respeito. Será a decisão de uma encruzilhada uma benção ou uma maldição? Será que o famoso destino coloca migalhas de pão, em forma de acasos, para que os reles mortais aprendam o caminho? Ou será que colocam armadilhas para que a gente desvie do caminho certo? Sagrado ou profano? Dádiva ou tentação?

 

A vida é uma sucessão de eventos do início ao fim. Eventos em círculo? Somos equipados, tal qual o Batman, com algumas “engenhocas” para facilitar o viver. Intuição, coração, fé. “No coração de quem ama fica faltando um pedaço”, já diria o assassino de metáforas que, dessa vez, até que acertou a mão. No meu coração está faltando pedaços. Pedaços que a culpa, tão grande quanto a do homem morcego, levou. Culpada sou pelas minhas decisões, pela vida que tenho hoje, por ter escolhido a pílula vermelha ao invés da azul. Sonhar mais alto, querer uma realidade melhor, um romance cheio de poesia, um companheiro sensível além de protetor me privou de uma vida ignorante, a mesma ignorância que hoje invejo.

 

“Eu só aceito a condição de ter você só pra mim! Eu sei não é assim... Mas deixa eu fingir e rir.”, Amarante, Amarante, sempre Amarante. O que foi decidido, decidido está. Não se mexe com o passado, só se lamenta. O futuro é o palco da criação. Coadjuvante nunca foi o meu papel, mas o aceito de bom grado se no final da peça o protagonista tirar-me da sombra para o sonho real.

 

“Eu sei quem és pra mim. Haja o que houver, espero por ti”.

 

O título desse post explica tudo. “Finders keepers” – mais uma frase do Batman – ou achado não é roubado, é a explicação e o antídoto para a minha culpa. Achei o seu coração, o seu mundo, e sou parte dele. Nego as convenções mundanas sociais e torno genuíno tudo o que guardo aqui dentro. Nas intersecções dos caminhos da minha vida, a sua foi a mais mágica e bonita de todas. E a voz interior não quer calar-se. Ainda não...

 

 

Vou afogar minhas crenças
Para que você fique em paz
Vou me vestir como você quiser
E lavar seus pés feridos

Não vá, apenas
Não vá

Não estou vivendo
Estou só matando tempo
Suas mãos pequenas
Seu louco sorriso de gatinho

Não vá, apenas
Não vá

E o amor verdadeiro espera
Em sótãos assombrados
E o amor verdadeiro vive
Em pirulitos e batatinha frita

Não vá, apenas
Não vá

 

(True Love Waits - Radiohead)

À primeira vista

Segundo o Aurélio:

 

  1. Da primeira vez que alguma coisa é vista;
  2. Sob a influência das primeiras impressões;
  3. Sem prévio exame ou reflexão;
  4. De repente, repentinamente.

Segundo Mara Regina:

 

Cinco esferas do sentir, à primeira vista, ao primeiro cheiro, ao primeiro acorde, ao primeiro gosto, ao primeiro toque. A inocência das experiências provadas em estado puro, sem marcas, genuínas e que, misteriosamente, me levam pela mão através do caminho ainda inexplorado portador dos deslumbres primários.

Minha imagem refletida, minha persona masculina, dados sincronizados levam o mesmo número nas jogadas do destino. Sonhos, pressentimentos e vozes são minhas conselheiras. Deixo-me enfeitiçar pelo seu mundo tão assustadoramente familiar.

Carneiro. Águia. Carne. Água. Os elementos se fundem, as vibrações sucumbem.

Sou você. Sou você. Sou você.

E basta.

 

"Though we're strangers 'til now,
We're choosing the path
Between the stars…
I'll leave my love
Between the stars
As the pain sweeps through,
Makes no sense for you.
Every thrill is gone.
Wasn't too much fun at all,
But I'll be there for you-ou-ou
As the world falls down.
Falling
As the world falls down.
Falling
As the world falls down.
Falling.
Falling.
Falling.
Falling in love!!!"

(As the world falls down - David Bowie)

"We cannot really love anybody with whom we never laugh."

Agnes Repplier, escritora americana.

Há muito tempo não deixava que meus ouvidos se encantassem por uma melodia.

Esta que publico abaixo foi a que me levou às lágrimas desde o primeiro acorde até o derradeiro. Gota a gota senti todo o percurso da trilha quente que ousou lavar meu rosto. O dia já raiava a possibilidade de estar sensível de uma maneira extrema. A noite já dava o tom com a voz de uma das pessoas que me são mais queridas, meu mestre, meu amigo Wauke.

Curiosamente, não foi a voz dele que dedilhou as veias do meu coração. Foram vozes femininas que falaram ainda mais alto em tom intimista. A deusa Alaíde Costa e a graciosa Shirley Spíndola.

Convido vocês, instigo e provoco suas memórias. Quando foi a última vez que o choro não pode ser contido por causa de uma música? Comente. Quero saber o que sensibiliza o seu mundo. Em quais melodias se faz o seu mar azul interior? Quais notas são maiores para fazer verter essas emoções aqüosas?

Te amo, fotografado por Andrea Lopez

"Andei sozinho, cheio de mágoa
Pelas estradas, de caminho sem fim
Tão sem ninguém
Que até pensei, em morrer
Em morrer
E vendo sempre, que a minha sombra
Ia ficando, cada instante mais só
Muito mais só
Sempre a caminhar, para não
Mais voltar
Eu quis morrer, e então eu via
Que eu não morria, e eu só queria
Morrer de muito amor por ti
E hoje eu volto, na mesma estrada
Com esperança, infinita no olhar
Para entregar
Todo o coração, que o amor
Escolheu
Para morrer, morrer de amor"
Morrer de Amor - Oscar Castro Neves e Luwercy Fiorini

Flip e os Vogons

Tudo começou no ano passado. Festa Literária Internacional de Parati. Já me chamava a atenção pelo nome, mas despertou inveja pelos mortais que puderam ver o mestre malandro de perto. Ele esteve lá. Na cidade histórica a beira-mar. Jogou uma pelada com a moçada e falou para milhares de olhos deslumbrados. Eu não fui.

2005: Flip homenageia Clarice Lispector. Fiquei atordoada quando vi. Seria desumano com a minha admiração perder tamanho deleite e expansão de idéias. Reservei a pousada, convidei uma amiga, tudo certo! Hoje começaram a vender os ingressos. Eles se esgotaram antes mesmo de um reles mortal conseguir esticar um dedo para comprá-los. Às 00h10 já eram história. Como? As agências de turismo compraram de rodo os meus preciosos papeizinhos. Brasil, meu Brasil brasileiro...

E por que Vogons? Segundo O Guia do Mochileiro das Galáxias, os Vogons são as criaturas com posse dos meus ingressos! "Os vogons são mal-humorados, burocráticos, intrometidos e insensíveis. São também os responsáveis pela destruição da Terra para dar lugar a uma via expressa interestelar. Os vogons são notórios por sua crueldade e pela forma não-convencional de castigo – ler poesias.  A poesia vogon é conhecida por ser a terceira pior do Universo e é comum pessoas da platéia roerem os próprios membros para conseguirem sobreviver." Não preciso nem dizer que você deve CORRER ao cinema pra sentar a bunda na cadeira e rir muito, né? Rir é o melhor remédio, mesmo nessa burocracia fétida que é o nosso país.

Não estou vencida! Vou pra Parati mesmo assim... Nem que for pra assistir da sarjeta em cima de banquinho de bar! Pelo menos dá pra tomar umas...   

Don't panic! Have you got a towel?

Ford Prefect, Arthur Dent e Zaphod Beeblebrox em "O Guia do Mochileiro das Galáxias"

Os Vogons - eca!

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