Querido Leonard,

Encarar a vida de frente, encarar sempre a vida de frente e conhecê-la como ela é. Enfim, conhecê-la. Amá-la pelo o que ela é. E depois descartá-la.
Leonard, sempre os anos que foram nossos. Sempre os anos. Sempre o amor. Sempre as horas.

Virginia

* * * * * * *

Julia: E a Sally?
Clarissa: Falso consolo.
Julia: E por quê?
Clarissa: Se me perguntar: “Quando foi mais feliz?”
Julia: Mãe...
Clarissa: “O momento em que foi mais feliz”.
Julia: Eu sei, eu sei. Foi há muitos anos.
Clarissa: É.
Julia: O que está dizendo é que já foi jovem.
Clarissa: (risos) Lembro-me de levantar certa manhã ao amanhecer. Havia tamanha sensação de possibilidades, sabe essa sensação? Eu me lembro de ter pensado: “Esse  é o início da  felicidade. É aqui que começa. E sem dúvida sempre haverá mais!”. Nunca me ocorreu que não era o começo. Era felicidade. Era o momento naquele  exato momento...

(David Hare, roteirista do filme "As Horas")

Virginia Woolf: You cannot find peace by avoiding life, Leonard.

"Onde queres revólver sou coqueiro, onde queres dinheiro sou paixão
Onde queres descanso sou desejo, e onde sou só desejo queres não
E onde não queres nada, nada falta, e onde voas bem alto eu sou o chão
E onde pisas no chão minha alma salta, e ganha liberdade na amplidão

Onde queres família sou maluco, e onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon sou Pernambuco, e onde queres eunuco, garanhão
E onde queres o sim e o não, talvez, onde vês eu não vislumbro razão
Onde queres o lobo eu sou o irmão, e onde queres cowboy eu sou chinês

Ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato eu sou o espírito, e onde queres ternura eu sou tesão
Onde queres o livre decassílabo, e onde buscas o anjo eu sou mulher
Onde queres prazer sou o que dói, e onde queres tortura, mansidão
Onde queres o lar, revolução, e onde queres bandido eu sou o herói

Eu queria querer-te e amar o amor, construírmos dulcíssima prisão
E encontrar a mais justa adequação, tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés, e vê só que cilada o amor me armou
E TE QUERO E NÃO QUERES COMO SOU, NÃO TE QUERO E NÃO QUERES COMO ÉS

Onde queres comício, flipper vídeo, e onde queres romance, rock'n'roll
Onde queres a lua eu sou o sol, onde a pura natura, o inseticídeo
E onde queres mistério eu sou a luz, onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro, e onde queres coqueiro eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal, bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal, e eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo te aprender o total do querer que há e do que não há em mim

(O quereres - Caetano Veloso na voz de Maria Bethânia)

Caminho

Precisava sair, tomar ar, andar na rua sem muito rumo, sem nenhum sentido. Um pé na frente do outro e na cabeça outra cabeça cantava: "Destiny, destiny protect me from the world!". Pensamentos levados pra longe, alguns deles desapareceram completamente. Depois de muito tempo, o corpo voltava a se exercitar! Contemplei o mundo do meu jeito, minha versão adolescente de fones nos ouvidos, mochila nas costas e rabo-de-cavalo. Observei o que a velocidade do dia-a-dia castra.

Um sobrado que é boteco de faculdade no térreo e casa no superior. Uma mulher na calçada olhava pra cima. Como toda mulher curiosa, olhei pra ver o que era. Um homem de jeans e sem camisa pendurado em sua porta-janela conversava com ela. Marcavam um encontro: "Às nove não dá", ele disse. "Posso chegar às dez se puder dormir aqui...", ela. "E precisa pedir?", ele arrematou a conversa e o meu áudio.

Pouco adiante, do outro lado da rua, outro sobrado. Arquitetura anos 60. Janelão. O curioso era o abajur psicodélico - digno de Pink Floyd - lá dentro da sala e o vidro todo filmado na cor roxa. Imaginei-me lá dentro tomando vinho, fumando um baseado e conversando horas a fio sobre seqüestros de embaixadores e libertação de prisioneiros políticos. O utópico fantasma dos anos rebeldes...

Encontrei Henrique (vide texto do dia 18/04) com sua família... família... família Henrique, oras! Passeavam a mulher, a menina e Henrique. A menina tinha um chapéu de bebê na cabeça, moletom e pés descalços, afinal, ali estava a melhor calçada da cidade! Fiz um afago em sua cabeça enquanto passava. A mulher empurrava um carrinho de bebê antigo, aquele de rodonas, com objetos metálicos dentro. Acho que o destino era o ferro-velho. Henrique cheirava a pinga e, cansado, arrastava as havaianas azuis e brancas de antigamente.

Um casal de meia-idade caminhava no sentido oposto ao meu. Ela, de lenço no pescoço, chapéu, roupas suaves. Ele, totalmente esportista. Cabelos brancos. Mãos dadas. A passos curtos, leves, sincronizados de encontro aos meus largos, rápidos, precisos. Abri distância visceral proposital.

Cheiro de eucalipto. Memórias da infância. A praça que ficava na frente da rua onde eu morava tinha altos eucaliptos. Nessa praça ainda fica a minha primeira escola, a do pré. Tia Annie era o nome da minha professora gorduchinha de bochechas rosadas. Brincar de massinha, trepa-trepa, correr pra pegar lugar na balança. E eu cá li pontos antigos, talvez vindouros.

"This is what you get when you mess with us!", cantava a cabeça na minha cabeça quando cheguei em casa. Rua sem saída, pequena para os meus devaneios. Encontrei um vício novo. Caminho...sempre. 

O que é o desejo senão uma grande urgência de seu inconsciente? 

Motivo catalisador dos atos impensados, do impulso, da imprudência. No telefone não havia discrição na abertura dos novos livros, das velhas aventuras tão frescas àqueles ouvidos, das risadas. Um universo penetrando noutro. Intersecção de caminhos, páginas brancas esperando outros traços. Conversas não bastariam. Os sons não eram suficientes deixar satisfeita a intuição. Seria preciso mais...

Um bar, um banco, um violão. Um amigo antigo, uma canção do mestre, várias canções do mestre. Deslumbre. O primeiro toque já daria o tom da noite. Abraço. Forte. Íntimo. Cerveja em copo americano e mais histórias de lugares afins, de estradas diferentes. O cheiro da pele embriagava, as mãos partiam na busca do outro. Não sei quanto tempo ficariam ali. Isso não importaria para o traçado manso e marcante no papel.

Sentidos roubados pela insensatez. Ainda em posse do criminoso. Resgate? Não há interesse das vítimas em reavê-los...

"Eu uso óculos escuros pras minhas lágrimas esconder
E quando você vem para o meu lado, ai, as lágrimas começam a correr
E eu sinto aquela coisa no meu peito
Eu sinto aquela grande confusão
Eu sei que eu sou um vampiro que nunca vai ter paz no coração
Às vezes eu fico pensando porque é que eu faço as coisas assim
E a noite de verão ela vai passando, com aquele seu cheiro louco de jasmim
E eu fico embriagado de você
Eu fico embriagado de paixão
No meu corpo o sangue não corre, não, corre fogo e lava de vulcão
Eu fiz uma canção cantando todo o amor que eu sinto por você
Você ficava escutando impassível e eu cantando do teu lado a morrer
E ainda teve a cara de pau
De dizer naquele tom tão educado
"Oh! pero que letra más hermosa, que habla de un corazón apasionado"
Por isso é que eu sou um vampiro e com meu cavalo negro eu apronto
E vou sugando o sangue dos meninos e das meninas que eu encontro
Por isso é bom não se aproximar
Muito perto dos meus olhos
Senão eu te dou uma mordida que deixa na sua carne aquela ferida
Na minha boca eu sinto a saliva que já secou
De tanto esperar aquele beijo, ai, aquele beijo que nunca chegou
Você é uma loucura em minha vida
Você é uma navalha para os meus olhos
Você é o estandarte da agonia que tem a lua e o sol do meio-dia"

(Vampiro - Jorge Mautner)

As paixões de Mara

Sou uma mulher de paixões fáceis, um pouco pela influência astrológica, um pouco pelo arrebatamento de sentidos. Sendo assim, tenho muitas! De vez em quando troco, mudo, mas a essêencia continua sempre ali... apaixonada! Terei a cara-de-pau de publicar algumas delas aqui. Quem sabe vocês também não compartilhem as mesmas do que eu, né mesmo? Mas antes preciso confessar o gatilho desse post. Ontem retomei duas paixões muito fortes e sustentáveis em minha vida. Ouvir Chico de novo e a sétima arte.

1. Cinema alternativo e conversa boa sobre o filme com café;

2. Escrever o meu coração nos meus textos, fatos subliminares, outros nem tanto;

3. Dirigir, dirigir rápido! Cantar as músicas do CD bem alto!

4. Viajar com amigos, com alguém especial pra um lugar desconhecido;

5. Assistir um filme logo ao acordar no domingo de manhã, na cama de pijama;

6. Ver o pôr-do-sol laranja da Serra do Japi num dia bem frio;

7. Ver o sol nascendo na praia ouvindo no walkman um jazz ou blues dependendo do estado de espírito;

8. Chico, Chico, Chico! Ouvir as minhas músicas do Chico;

9. Ler um título sugerido e discutir idéias depois;

10. Descobrir as pessoas pelas técnicas esotéricas que estou estudando e ouvir/ver a cara de espanto delas;

11. Brincar com meus cães;

12. Tomar vinho a noite toda filosofando sobre a vida;

13. Sentar no morro verde, sentir o vento nos meus cabelos, segurar as pernas nos meus braços, ficar bem apertadinha e ouvir a voz interior;

14. Shows de MPB, shows de rock nos botecos do Bexiga, no Delta Blues;

15. Ir ao Tequila com os amigos;

16. Minhas crianças! Os risos, os beijos, os abraços, as carinhas. Eles por si mesmos;

17. Ensinar;

18. Acender um incenso, ou uma essência no richaud e dormir ouvindo uma música bem suave;

19. Ver as formas das nuvens no céu, deitada num cobertor;

20. Ver as estrelas, enrolada no cobertor, com um copo de vinho ou conhaque;

21. Fazer brownie pros amigos;

22. Nadar no mar;

23. Dançar qualquer ritmo aproveitando o meu corpo;

24. Beijar uma atração fulminante, conhecer um mundo diferente de uma outra pessoa. Me deixar fascinar por ele;

25. Sexo bem feito. Envolvimento de pernas e pés. Enlace de corpos;

26. Teatro, ópera;

27. Apaixonar-me! Observar que minha vida é completa em si mesma e que minha doação é genuína...

De-Lovely!

Acabei de assistir De-Lovely, A Vida e Amores de Cole Porter. Não sabia que ele "jogava nos dois times". Não sabia que era casado com uma mulher que cobria todas as suas puladas de cerca. Fiquei pensativa...

Por que uma pessoa faria isso? Amor obsessão? Ou amor devoção? Ahn... Não é esse que todo mundo diz que existe mas que ninguém nunca viu? O tal lance de amar pensando só no que se dá e não no que se há de receber...

Os Beatles já colocariam essa frase na minha (e da Thaís também!) favorita tríade deles (Golden slumbers/Carry that weight/In the end), que vai mais ou menos assim: "And in the end the love you take is equal to the love you made". Pois é, Cole Porter sempre declarou que todas as músicas eram inspiradas e feitas para Linda Porter, sua esposa. Moeda de troca?

"Strange dear, but true dear,
When I'm close to you, dear,
The stars fill the sky,
So in love with you am I.
Even without you,
My arms fold about you,
You know darling why,
So in love with you am I.
In love with the night mysterious,
The night when you first were there,
In love with my joy delirious,
When I knew that you could care,
So taunt me, and hurt me,
Deceive me, desert me,
I'm yours, till I die.....
So in love.... So in love....
So in love with you, my love... am I..."

(So in love - Cole Porter)

O bêbado e a equilibrista

Separados pela tênue diferença da embriaguez e da lucidez, chapéu côco e picadeiro, terno branco e fantasia, anonimato e brilho, olham-se e percebem-se um no outro. As linhas se confundem, há sentido no equilíbrio e na perdição de seus passos. Caminham. Sonhos reais, realidade descartada.

Os entorpecentes faziam as vezes da concentração na corda bamba. Vertigens, quedas, saltos. O amor de dois antagônicos. O amor complemento. A oposição faz com que culminem para o mesmo ponto. E dançam como se esse fosse o único objetivo e sentido para suas pernas e pés. Deslizam pelo suave toque do vento em suas faces, rodopiam através do tecido translúcido e acariciante. Esquecem as horas, apagam o mundo. Dois que se tornam um na magia dos movimentos que a música molda.

Escute a melodia.

Um dia frio...

Chegou! O frio chegou! Amigos mais próximos já sabem, mas para os leigos lá vai mais uma informação sobre mim: AMO o outono! As folhas, o céu azul anil, os entardeceres laranja (te copiei Marcelo!) e aquele solzinho gostoso que nos aquece os narizes gelados! Bochechas rosadas, vaporzinho saindo enquanto estamos conversando, cabelos despenteados pelas peripécias do vento, choconhaque! Vixi! É tanta coisa! Falo mais disso outra hora... Hoje tenho imagens!

Mara-Célia-Maria - Café Tequila - 28/04/05

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