"(...), ai Rute, se o tempo no teu rosto te cobrisse de rugas, se tivesses a dura e adocicada comunhão com as coisas, talvez sim tu serias mais bela porque o rosto adquire refulgência se dor e maravilha e matéria de tudo o que te rodeia te penetra, e ao invés de gastares teu ouro no apagar de umas linhas finas e de sulcos, tu te tocarias amante, mansa, sabendo que o vestígio de todas as solidões se fez presença no teu rosto, que o sofrido da água é cicatriz agora ao redor da tua boca, que tomaste para a tua fronte a linha funda da pedra"
(Hilda Hilst - Tu não te moves de ti)
Os miseráveis
"!", ecoava pela caixa craniana de Henrique. Motivo não havia, ao erro pertencia seu nascimento e ao sarcasmo seu destino. Não pediu pra nascer naquela realidade fétida, desumana, impossível. Se há verdade na expressão "relógio biológico", Henrique dissertaria sobre o assunto magistralmente. Todas as suas ações respondiam a chamados de seu corpo. Horas, minutos, segundos biológicos. Fome? Porta em porta pela vizinhança. Sede? Torneira de alguma casa comercial. Sono? Ponte, calçada. Frio? Abrigo assistencial. Rico pelo nome tornava sempre o tilintar das moedas em música para seus ouvidos. Passava horas observando as pessoas pararem e saírem apressadas de seus veículos. Trocados. Com o avesso de seus ponteiros gastava tudo com a vontade do momento...
Ariadne gostava de ouvir as buzinas na calada da noite. "Bi-bi, gostosa!", mais pérolas para sua coleção. Uma morena jambo, cabelos encaracolados até a cintura, olhos amendoados, corpo de rainha da bateria de escola de samba. Não era egoísta, era sim uma boa negociante. Vendia tudo aquilo ao preço que lhe custava. Mais um cliente. Serviço completo? Mão-de-obra? Lábios de mel? Tudo incluso! Uma hora depois retoma seu posto. Esquina, pernas, decote. Prazer? Quase nada. Profissional? Muito! Cinco da manhã, o sol virá desvendar seus mistérios. Fuga. Ônibus. Vila. Casa. Beijo nas crianças. Dinheiro para o pai. Dever cumprido, sono dos justos...
Artesã de renome, Deusa vivia de sua arte. Uma mulher sensível, altiva, linda sempre brilhava nos eventos sociais e festivos. "Tão escorregadia como um peixe!", diziam seus pretendentes. Deusa lograva seu sentimento pelas telas. Rogava às cores pelas sensações. Perdoava aqueles sem nenhum discernimento artístico que pagavam o seu cotidiano. A volta para o atelier era sempre marcada pelos fantasmas. A noite, a solidão, o vinho, a exigência. Ao traçar mais uma linha Deusa percebia que aquele não era o seu lugar. Há muito decidira trilhar um caminho, sua encruzilhada foi um preço muito alto a ser pago - a morte dos sonhos púberes.

Larry: [on a photography exhibit] What do you think?
Alice: It's a lie. It's a bunch of sad strangers photographed beautifully, and... all the glittering assholes who appreciate art say it's beautiful 'cause that's what they wanna see. But the people in the photos are sad, and alone... But the pictures make the world seem beautiful, so... the exhibition is reassuring which makes it a lie, and everyone loves a big fat lie.
Alice: Where is this love? I can't see it, I can't touch it. I can't feel it. I can hear it. I can hear some words, but I can't do anything with your easy words.
Anna: Don't stop loving me. I can see it draining out of you. It's me, remember? It was a stupid thing to do and it meant nothing. If you love me enough, you'll forgive me.
Alice: Why isn't love enough?
Bem-vindos a Closer, senhoras e senhores! Uma ficção realista demais tal como a linha de chamada de Beleza Americana - "Olhe mais perto..." E aprecie a degradação do que um dia foi sensibilidade e sentimento puros. Atores principais? Nós mesmos! Com toda soberba e individualidade características do adulto do século XXI.
And so it is
Just like you said it would be
Life goes easy on me
Most of the time
And so it is
The shorter story
No love, no glory
No hero in her sky
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes...
And so it is
Just like you said it should be
We'll both forget the breeze
Most of the time
And so it is
The colder water
The blower's daughter
The pupil in denial
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes...
Did I say that I loathe you?
Did I say that I want to
Leave it all behind?
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off you
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off you
I can't take my mind off you
I can't take my mind...
My mind...my mind...
'Til I find somebody new
(The Blower's Daughter - Damien Rice)

Michael Cheval - Seven Winds Messenger
"Day after day alone on a hill
The man with the foolish grin
Is keeping perfectly still
But nobody wants to know him
They can see that he´s just a fool
And he never gives an answer
But the fool on the hill
Sees the sun going down
And the eyes in his head
See the world spinning round"
(Lennon/McCartney)
"Vows are spoken
To be broken
Feelings are intense
Words are trivial
Pleasures remain
So does the pain
Words are meaningless
And forgettable"
(Depeche Mode)
"Será que é tempo que me falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára..."
(Lenine)
Em Laudicéia
O lago, o mar, as nuances de temperatura. O verde dos olhos, o negro dos cabelos. Maria enlaçava-se com a sensatez e moldava o vaso para carregar a água dos dias vindouros. João havia encontrado o morno tão ausente e temido pelos dois pequenos habitantes. Nada mais pelava, nada mais trincava. Morno. Fecham os olhos e calam.
Não há como retroceder quando algo incompreensível é descoberto. Ela esconde sua face, seu peito, ele segue seu caminho de explorador. Perdidos estavam os cheiros, os gostos, os toques. Havia tristeza no olhar de João. Continuar era preciso, mas para onde e por quê, não. O mar estava transposto finalmente. De longe ele observava o dorso da mulher, fingia acariciá-lo e a cada onda percebia que a margem e o porto se afastavam. No cais o vaso estatelava-se ao chão.
Separados pelo mar, pelos cacos, Maria e João permitem-se o último choro, seco, ao primeiro acorde de João e Maria. Velam a morte de uma realidade mágica, da sintonia e da intimidade. Laudicéia, em ruínas, ecoa as risadas e as frases de um amor que não teve tempo de ser. E assim o é do jeito que era fadado - "para sempre é sempre por um triz". Aceno. Adeus.
Os filmes de 2005
.:1:. Perto demais (Closer) - Mike Nichols
.:2:. Mar adentro - Alejandro Amenábar
.:3:. O aviador (The aviator) - Martin Scorsese
.:4:. Os sonhadores (The Dreamers) - Bernardo Bertolucci
.:5:. Robôs (Robots) - Chris Wedge/Carlos Saldanha
.:6:. Reencarnação (Birth) - Jonathan Glazer
.:7:. Em busca da terra do nunca (Finding neverland) - Marc Forster
.:8:. Sideways - Entre umas e outras (Sideways) - Alexander Payne
.:9:. Espanglês (Spanglish) - James L. Brooks
.:10:. Constantine - Francis Lawrence
.:11:. Meu tio matou um cara - Jorge Furtado
.:12:. Alexandre (Alexander) - Oliver Stone
.:13:. Lenda do tesouro perdido (National Treasure) - Jon Turteltaub
Nicole Kidman está um pouco sem brilho nessa produção sim, não vou tentar tapar o sol com a peneira. A cena em que ela está na ópera e que, pela primeira vez, se dá conta que a história do menino ser a reencarnação do marido morto possa ser mesmo verdade é tão pertubadora, emocionante e triste quanto a de Rebecca Del Rio cantando "Llorando" no clube Silencio de Cidade dos Sonhos. Para mim Reencarnação ficou marcado pela temática do amor que ultrapassa até mesmo a morte, aquele que todos nós dizemos não acreditar e ser utopia mas que no fundo, no fundo queríamos que acontecesse conosco.
Foi difícil colocar Mar Adentro na segunda posição do ranking. Ele divide a primeira com Closer sem ficar devendo. O tema do filme é muito difícil, complicado e fui ao cinema apreensiva, pensando que iria chorar muito no estilo mexicano. Surpresa. Chorei sim, claro, mas pelo lirismo das cenas, pela vida que escorria da tela numa história que era permeada pela morte. A reflexão ficou com nosso egoísmo frente ao sofrimento dos outros que amamos. Não queremos que os outros morram porque isso nos tirará a paz e tranqüilidade, nos deixará saudade. A morte é uma passagem que não permite acompanhantes e muitos ficam na estação.
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