Saltimbancos

Infância. Tempo gostoso de lembrar... Muitas das preocupações nem existiam e o dia, 24 horas, já era uma VIDA dentro dele mesmo. Essa forma de pensar é que era a certa: vivemos hoje em uma dimensão errada talhada no futuro para as ambições e cravada no passado e seus fantasmas. O hoje infantil morreu lá na puberdade.

Chamar todos os vizinhos pra brincar junto. Escolher a brincadeira: pega-pega, esconde-esconde, mãe da rua, pega-alto, queimada, alerta, lenço atrás, mês, polícia e ladrão. Tirar quem iria ser "pego" no pego ou livre. Rasgar o papelzinho ou a folha de árvore em dois para ficar com ambas as mãos "pegas" quando chegasse a vez daquele desafetozinho bater. Jogo de tabuleiro nos dias de chuva: banco imobiliário, cara-a-cara, tapa-certo, detetive, scotland yard, jogo da vida, cai-não-cai, leilão de artes. Andar muito de bicicleta na praça, na rua e inventar um "castelo" pra ser a casa dos "cavalos", vulgo magrelas. Ir ao cinema em turma levada pela Branca de Neve. "Ahn?"

Vou falar de um dos meus "hojes" pueris e Branca de Neve estava nele sim! Estava não, ainda está! Branca de Neve era a forma carinhosa que nós chamávamos a minha avó que, por causa de vitiligo, ficou bem branquinha de pele. Então ir ao cinema já era uma fábula antes mesmo de sair de casa! Jundiai tinha dois cinemas no centro apenas, o Ipiranga e o Marabá. O Ipiranga era um pouquinho melhor porque sempre exibia filmes diferentes em suas duas salas. E lá era o nosso destino.

Era uma mini procissão de anõezinhos, nós, atrás da sra. Branca. Lembro das recomendações da minha mãe para sempre obedecer a vó e prestar atenção nos carros e na minha irmã, que já era um terror. O caminho não era muito longo, a pior parte era uma ladeira que sempre parecia sem fim! E para perninhas curtas, deveria ser mesmo.

Muita água no bebedor ao chegar e a Branca comprava os ingressos pra gente. Pegava o nosso dinheirinho e se dirigia para a cabine falar vez com a Cinderela, vez com o Príncipe Encantado. Pronto! Hora de passar a roleta! Os pezinhos almofadados pelo carpete, os assentos de couro azul marinho. Quando sobrava algum trocadinho, a Branca nos deixava comprar alguma coisa lá no balcão do Capitão Gancho. Esse era o nome dele porque ele tinha cara de mau e sempre levava a nossa riqueza como todo pirata faz. Tudo bem! A gente voltava com as mãozinhas cheias de alguma coisa. O meu favorito era o Mentex.

Todos sentados e animados para que as luzes se apagassem. Muito falantes, inquietos, cabeças levantando, "sssshhhhh! fica quieto!". Penumbra, a magia estava prestes a começar...

"Au, au, au, hi-ho, hi-ho
Miau, miau, miau, cocorocó"

"Quem vem com a boca no trombone: Pom pororom pororom pompom
Quem vem com a bossa no pandeiro: Chá carachá carachá chachá
E quem só toca telefone: Trim tiririm tiririm trintrim
E quem só canta no chuveiro: Trá tralalá tralalá lalá
Quem vai querer sair na banda: Pan pararan pararan panpan
Hoje a banda sairá: Ah, sairá, sairá, sairá laiaralaialaialaiá
Hoje a banda sairá
Olá, liberdade!"

"Ói nós aqui
Ói nós aqui
How do you do
Caruaru
I wanna see
Piripipi
Ói nós aqui"

"Onde quer que esteja
Meu caro Barão
São Brás o proteja
O santo dos ladrão
Tava na faxina
Do seu caminhão
Vi essa maquina
De escrever no chão
Escovei a nega
Lavei com sabão
Deu uma cocega
Nos calo da mão
Pronto
Ponto
Tracinho, tração
Linha
Margem
Meu caro Ba..."

"Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio
Felino, não reconhecerás"

"No intervalo tem cheirim de macarrão
E a barriga ronca mais do que um leãozis
Quero um prato
Cê tá louco
Quero um pouco
Cê tá chato
Só um pedaço
Cê tá gordo
Eu te mordo
Seu palhaço
Olha o público
Cansado de esperar
O espetáculo não
Pode parar!"

(letras de Enriquez - Bardotti - Chico Buarque/1981)

Cut. Copy. Paste.

Meu coração pulou
Você chegou, me deixou assim, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Ai, diz quantos desastres tem na minha mão
Me diz o que é o sossego que eu te mostro alguém
a fim de te acompanhar
e se o tempo for te levar eu sigo essa hora
eu pego carona
pra falar da cor dos temporais
do céu azul, das flores de abril
pensar além do bem e do mal
lembrar de coisas que ninguém viu
o mundo lá sempre a rodar
e em cima dele tudo vale
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião, o seu bicho preferido
Vem, me dê a mão, a gente agora já não tinha medo
Eu, que não digo
Mas ardo de desejo
Te olho
Te guardo
Te sigo
Te vejo dormir

Os filmes de 2005

.:1:. Perto demais (Closer) - Mike Nichols

.:2:. Os sonhadores (The Dreamers) - Bernardo Bertolucci

.:3:. Em busca da terra do nunca (Finding neverland) - Marc Forster

.:4:. Sideways - Entre umas e outras (Sideways) - Alexander Payne

.:5:. Meu tio matou um cara - Jorge Furtado

.:6:. Alexandre (Alexander) - Oliver Stone

.:7:. Lenda do tesouro perdido (National Treasure) - Jon Turteltaub

Ao final de Closer veio-me o compromisso de cometar o meu novo número um. Fiquei apreensiva. O que falar sobre algo que ainda está tão perto? Soou-me estranho. Estranho porque não conseguiria separar a minha própria vida das daqueles quatro. Quem sabe uma outra hora, um outro dia. Por enquanto deixo-os com as palavras de Contardo Calligaris que muito elucidaram tudo o que vi na telona e que também trouxeram boas conversas para uma mesa de café.

Sideways apresentou uma deliciosa fotografia, tanto pelos vinhedos quanto pelos alcóolicos propriamente ditos. O ator coadjuvante foi uma surpresa. Muito expressivo, muito engraçado. Mas, além de todo aprendizado sobre vinhos e uma puta vontade de encher o caneco ficou um comentário, uma metáfora sobre o tempo certo de deixar um vinho respirar e os acontecimentos de uma vida. Taí:

Maya: Wow, this is really starting to open up, what do you think? I started to appreciate the life of wine, that it's a living thing, that it connects you more to life. I like to think about what was going on the year the grapes were growing. I like the think about how the sun was shining that summer and what the weather was like. I think about all those people who tended and picked the grapes. And if it's an old wine, how many of them must be dead by now. I love how wine continues to evolve, how if I open a bottle the wine will taste different than if I had uncorked it on any other day, or at any other moment. A bottle of wine is like life itself - it grows up, evolves and gains complexity. Then it tastes so fucking good.

Os Maias

"(...) Ega não se admirava. Só ali no Ramalhete ele vivera realmente daquilo
que dá sabor e relevo à vida - a paixão.
- Muitas outras coisas dão valor à vida... Isso é uma velha ideia de
romântica, meu Ega!
- E que somos nós? exclamou Ega. Que temos nós sido desde o colégio,
desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se
governam na vida pelo sentimento e não pela razão...
Mas Carlos queria realmente saber se, no fundo, eram mais felizes esses
que se dirigiam só pela razão, não se desviando nunca dela, torturando-se
para se manter na sua linha inflexível, secos, hirtos, lógicos, sem emoção até
ao fim...
- Creio que não, disse o Ega. Por fora, à vista, são desconsolar-se. E por
dentro, para eles mesmos, são talvez desconsolados. O que prova que neste
lindo mundo ou tem de se ser insensato ou sem sabor...
- Resumo: não vale a pena viver...
- Depende inteiramente do estômago! atalhou Ega.
Riram ambos. Depois Carlos, outra vez sério, deu a sua teoria da vida, a
teoria definitiva que ele deduzira da experiência e que agora o governava.
Era o fatalismo muçulmano. Nada desejar e nada recear... Não se abandonar
a uma esperança - nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o que vem e o
que foge, com a tranquilidade com que se acolhem as naturais mudanças de
dias agrestes e de dias suaves. E, nesta placidez, deixar esse pedaço de
matéria organizada, que se chama o Eu, ir-se deteriorando e decompondo até
reentrar e se perder no infinito Universo... Sobretudo não ter apetites. E, mais
que tudo, não ter contrariedades.
Ega, em suma, concordava. Do que ele principalmente se convencera,
nesses estreitos anos de vida, era da inutilidade do todo o esforço. Não valia
a pena dar um passo para alcançar coisa alguma na terra - porque tudo se
resolve, como já ensinara o sábio do Eclesiastes, em desilusão e poeira.
- Se me dissessem que ali em baixo estava uma fortuna como a dos
Rotschilds ou a coroa imperial de Carlos V, à minha espera, para serem
minhas se eu para lá corresse, eu não apressava o passo... Não! Não saia deste
passinho lento, prudente, correcto, seguro, que é o único que se deve ter na
vida.
- Nem eu! acudiu Carlos com uma convicção decisiva.(...)"

Eça de Queirós

 

De corpo cansado e cabeça pesada, Roberto lançou-se ao repouso. Atirou-se à cama como forma de esquecer o espaçamento de idéias, o corte de fluxo dos pensamentos. O dia havia sido permeado dessas ausências. Assim, oferecia ao inconsciente a chance de tomar as rédeas dos acontecimentos. Teve o amparo de um dorso feminino que também viria a acudi-lo e a mostrar-lhe o caminho.

O que fazer com tantas linhas interrompidas? Flashes de uma vida perdidos para sempre, sem pistas deixadas para trás. Roberto sofria o mesmo mal dos estudantes púberes em dia de prova, o que vulgarmente dá-se o nome de “branco”. Seu caso era mais grave pois se tratava de uma doença crônica advinda dos tempos dourados. Os lapsos causados pela falta de circulação de sangue devidamente regular o levara a perder certas regalias tão cobiçadas por todo homem moderno - dirigir o último modelo esporte de automóvel, cruzar o país sem eira nem beira, estudar fora ou mesmo obter um cargo de respeito em uma multinacional, visto como uma coroa de louros para sua profissão de arquiteto.

Mas, Roberto desdenhava dos gregos e suas fúteis celebrações do um. Bastava-lhe a eficácia em seus projetos e criações. Era ali que galgava seu caminho alexandrino. Irônico dizer que era o mesmo berço da imaginação que o faltava, enrubescia, castrava.

O leito do homem tornou-se a câmara de suas revelações naquela noite. Em raios tão fugazes como a paixão febril de um coração, os fatos alvos ganhavam cor. Havia sim uma mulher, mas não aquela que oferecia seu colo como alento. Outra. Mulher de formas raras, bem feita, uma estátua de Afrodite encarnada. Olhos brilhantes, curiosos, vivos e altivos. Cabelos sedosos de suave caimento nos ombros e tez tão macia como um copo de leite. Roberto a desejava, a possuía, arrebatava-lhe os sentidos, e sabia que aquilo era errado frente às suas lacunas de estado civil. A fuga era concomitante.

Ousou pintar as linhas além. No ápice de seu encontro vespertino, em meio a fluídos delituosos e demonstrações desenfreadas do prazer da carne, o cândido tornou-se rubro. O tom escarlate manchava a alma de Roberto e riscava toda sua derme subitamente. A mulher ajoelhada e penitente chorava o fim do marido estendido ao chão pecaminoso de seus suspiros. Em poucos minutos também ela alcançaria a mesma sorte.

Acordou assustado. Sentiu o conforto das mãos que afagavam seus cabelos. Respirou aliviado e dirigiu-se ao espelho. Nenhum sinal. “Foi um sonho, apenas um sonho.” O lapso voltava a atormentá-lo como um velho cacoete. Voltou a deitar-se sem perceber que seus lençóis, curiosamente brancos, absorviam todo o sangue vertido de seus flagelos. O traçado seria lido tal qual palma da mão, a tomada de consciência ganharia valor. A ponte cruzada cairia tão logo o caminho fosse transposto. E a Roberto restaria um único desejo, o de voltar ao conforto de sua alva ignorância.

"Ignorance is bliss."

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